domingo, 5 de julho de 2015

44. Um Morador de Rua.

   Tiro projetado, liberta o cano do revolver, risca o céu, desfaz a fumaça, desloca o ar que queima: foi escutado em diálogo de morador de rua com policial, enquanto olhavam a água do canal 3, que refletia algo etéreo.
   Morador de Rua - Combustão da vida, que não para.
   Policial - Para no vácuo provocado, incombustível.
   - Essa é a ponte, sob a qual eu moro, com trilhos do trem elétrico.
   - Mais silenciosa e limpa, que da época à diesel?
  - Sim!
  - Como se sente? Invadido em sua casa?
   Silenciosa e sem a fumaça, com os dormentes fixos em concreto, com trem movido à eletricidade em velocidade constante com os semáforos abertos à passagem.
   - Sinto-me na rua de minha infância, na garupa de bicicleta.
   - Sobre qual roda você ia?
   - A detrás.
   - Qual roda você admira?
   - Aquela, do meio.
   - Por que não é a da frente?
   - Ela pega vento e fica entretida com o futuro, a detrás me remete ao passado, já a do meio à vida presente.
   - Você enxerga em qual desastre está metido?
   - Rompo o casulo, dessa sua crítica fundamentada.
   - Eclodo borboleta, então, com suas asas assertivas.
   Morador de Rua - Faça fotossíntese em folha, que me nutra enquanto lagarta.
   Policial - Que meu ego de avenida caiba em sua rua de criança.
   - Remo para singrar!
   - O que esse trem faria!?

tecida em união
uma ponte de passarinhos –
Vega e Altair

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