quinta-feira, 21 de maio de 2015

24. Música na Medida.

   O aparelho telefônico passou, da zeladoria, para minha casa. Eu recebia ligações, triviais, para que, como “zelador”, interfonasse a um só condômino. Tudo chegava, com musicalidade, pela voz de “meus” interlocutores.
   Passou-me batida uma solução, em simples atravessar de rua, para chamar-lhe via interfone, disponível, atrás de seu prédio, voltado para minha rua.
   Como atinar nesse caráter, boêmio, inusual para mim, mas tão próprio de um conselheiro fiscal, do "Clube do Choro", sempre em dia com seus atrasos?
   Ao invés de ajoelhar-me, diante daquele prédio, para suplicar solução, foi ele que ajoelhou-se, quase, diante de mim. Explico essa megalomania. Estava conversando, presencialmente, com um amigo, a duas quadra dali, quando ouvi um ruído explosivo: era a coluna daquele prédio que cedera ao peso existente, seguido de um choro - outro, menos musical, de seus moradores.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

23. Liberdade.

   Obter cânhamo - semente de cannabis, para alimentar o passarinho engaiolado.
   Será melhor libertar o, mantido junto, pássaro!? Tal estará melhor possuído, ou melhor solto, neste tardar, de seu cuidador, em supri-lo?
   Essa minha ficção - aventada, invade a sua realidade - vivida. Se seu ensaio referencia o mensurável, já o meu é, praticamente, arreliação descabida. Fecho meu conto, presunçosamente adulto, para abrir meus ouvidos ao que há, em sua história, de força motriz que toca meu coração, desarvorado, procurando sua raiz.

22. De Castigo Sob a Escada de Madeira.

   Por ter beijado minha prima, professora substituta - sob o jugo do Diretor, este me deixou, ali de castigo, no retorno do recreio. 
   O ato desaprovado, por ele, se deu sobre o balcão de alvenaria da cantina, vencida a separação entre gêneros. 
   Sua filha, e o seu genro, decerto nunca se beijaram, quiçá até no rosto, ali, para evitar semelhante constrangimento.

21. O Claro e o Escuro.

   O guaru sai do canal. A maré é baixa. A comporta se abre.
   A água da chuva é, ocupante de tal passagem, dali esvaída. O mar os recebe: a água salobra é doce perto daquela à frente, onde o guaru é curioso.
   O sol clareia. Há pedra e sombra. A correnteza domina, tira a onda, em seu caminho raso. As guelras se abrem, ali. Suas pequenas escamas se eriçam. Sua cor verde se mistura, ao tom mais tênue dali, harmoniosamente. É vazante o sentido.
   O costão rochoso aparece na ilha ao largo. Explosão de ondas de águas que até então se espraiavam, agora indóceis.
   Aprofundada água. A raia jamanta a ocupa, onde seu corpo imerso ondula. O guaru observa, imperceptível à gaivota que a tudo isso sobrevoa, que ali se nutre. As águas se equilibram, sem expandirem-se.
   O homem passa ao largo, em braçadas vigorosas. Uma corda se estica, de seu tornozelo à bóia. Um arpão singra da quase superfície ao fundo. O mero está, em ampliada forma, tentando sobreviver àquela certeza, de ser consumido em desejo de vitória.
   A bóia é puxada, para baixo, aos trancos. A arte da pesca sobressai à fome. Há clareza nos dentes que mastigam, onde escuridão é saciada.

terça-feira, 19 de maio de 2015

20. O Dono de um Circo.

   - Alguém olha, por um buraco da lona, sem pagar.
   - Acolá estarão, os leões, sem o que comer, se o buraco aumenta.
   - A chuva atola a roda da carroça, mas lava a lona costurada.
   - Eu que dou a liga pra união de teus pedaços.
   - Você que traz, de além-estrada, a alegria ao picadeiro.
   - Ele que é, como um céu, testemunha de tamanha força.
   - Nós é que formamos, em arco, uma aliança.
   - Vós que protegeis a todos, agora sois protegidos.
   - Eles é que aplaudem.
   - Outrem é, em regozijo solidário, quem paga a conta.

Importante para O Escritor.

   É importante para o escritor que ele tenha um reservatório de imagens míticas, conhecidas por todos, e que ele saiba sonhar com os olhos abertos. Vê-las como se fosse uma criança ou um extraterrestre, que saiba gravar, nessas imagens, suas vozes.
   É importante sempre associar vozes e paisagens, até que ele consiga ouvir a voz humana, trancada dentro de um lago onde muitos mortos, de séculos atrás, se banharam. Trata-se de recuperar todas as vozes extintas, soterradas, hoje desconhecidas.
   A voz de uma árvore, de um índio, de um andarilho, da criança que ele foi, surge se ele escavar com muita atenção, religiosamente, persistentemente, todas as vozes do mundo.
   Para um bom escritor, antes de existir, as coisas devem falar, cada uma, com sua voz única. Todas as possibilidades de criar um grande romance, conto, cronica ou ensaio, dependem da capacidade que o escritor tem de imaginar e assim sonhar e recriar as vozes que foram perdidas, para que o leitor, ao ouvir, saiba que não está só.

19. O Rio É a Solução.

   - O fim da tarde está próximo.
   - Tudo bem!
   - Amanhã você nascerá.
   - Eu esperarei dormindo.
   - A noite é a última que cairá sobre você.
   - Mas as estrelas estarão, lá no firmamento?
   - Sim. Só nosso mundo é que acabará.
   - O meu medo é que ele continuasse, não que ele acabasse.
   - As baratas continuarão, lá em baixo.
   - Os taxistas também?
   - Já estão, com essa carestia, morrendo de raiva. Vou pegar um agora.
   - É uma bandeira dois para o além?
   - Sim, tamanho preço a se pagar.
   - O infinito permanece?
   - Há infinitude, que permanece. Só nosso mundo chega ao fim.
   - Qual essência prevalecerá?
   - O buraco é negro e vencido será, lá em Sampa.
   - Há luminosidade em suas palavras.
   - Que elas ecoem, meu filho, em Santos, agência pra onde seu pai se transferirá em caso de bom termo, hoje.
   - Eu sou seu eco e repercuto você.
   - Dê-me suas mãos.
   - Elas serão suas, amanhã, quando eu nascer. Hoje servirão, escondidas da vista de terceiros, a sensibilizar a gerência de recursos humanos.
- Mas, se eu conseguir a tal transferência, aqui na matriz do banco, um renascer acontecerá, e nos daremos às mãos. Veja a pista, do Aeroporto Santos Dumont, que beleza. Mais ali fica o palácio, atrás dessa cortina de prédios, do Catete.
   - Essa turbulência fazia, do Electra ao líquido amniótico, ondas.
   - De São Paulo pra Santos também balançará, todavia, pela estrada velha de Santos, menos que pelo Caminho do Lorena.
   - Sim, mas a perda da vida intra-uterina, me fará ganhar o mundo exterior.
   - Bem vindo será, pois ao menos me tornará, assim, mais leve.