sexta-feira, 3 de julho de 2015

39. Uma Festa.

   Festa - Sou o evento, efêmero, de seu aniversário.
   Aniversariante - Ausente estarei.
   - Será uma festa, então, só para os convidados!? Com um grande vazio me sentirei.
  - Fico com vergonha, pois os olhares me constrangem se voltados pra mim.
   - Quando deu-se conta de sua existência, ficou com vergonha também?
   - Foi ao acordar, de sonâmbulo retorno, ao pé da cama de minha avó, apartado que fui do quarto – por uma noite.
   - Sentiu-se notado?
   - Sim.
   Estava ali, então, a festa na forma de abraços da sua avó, mas ele estava, ainda, meio dormido - por isso sem vergonha.
   - Saí de casa e do bonde olhei, após acenar pra minha avó, e vi pela janela a orla do mar, dali sentado, num banco voltado pra janela lateral oposta, daquele bonde fechado – o camarão. Eu era apenas o que via, lá fora: uma paisagem que corria.
   - Você estava só?
   - No caminho sim, da natação pra encontrar o Leiva - meu técnico, do Clube Saldanha, num bonde vazio, até que subiu alguém com mais que meus 14 anos, junto a outro com menos. Sentou-se junto a mim aquele maior, que lateralmente tocou-me o ombro, com seu cotovelo. Ali eu era o mar, que via e, como tal, fluí pra adiante. Fui tocado novamente. Mas aí, eu já era a areia, que em ventania aspergia pra diante. Mais forte foi o toque seguinte e ali eu já era a nuvem, daquele céu, que eu via, e assim flutuei, logo adiante, como se ao vento estivesse. Um novo empurrão e eu era a pedra do costão rochoso e assim e ali permaneci.
   - E?
   - Pra fora rolei. O motorneiro nem viu, esse meu périplo.
   - Com esse peso adquirido, você, afundou na piscina?
   - Antes eu estendi meu corpo, alongado naquele treino, assistido por meu “irmão mais velho” – o técnico.
   - Seu sorriso, de canoa, já navega, vó, em meu mar de esperança.
   - Depois de você o gene cora, lá diante de sua história, há doces que adora, filhos fazem sua dedicatória.
   - Linha escrita desde Santos, que vem de lá madura, deixa frutos além caule, verso dá a sua cura.
   - Fica longe de algoz, mora em um rio da casa, com livro pesca em nós e tira-nos da água rasa, esta que dá liberdade aos pés e deixa ver o leito, mas sem refletir o que paira no céu.

a vara enverga
desde o manguezal –
emerge o Robalo

quinta-feira, 2 de julho de 2015

38. Céu Espelha.

   Gavião - Você é minha testemunha.
   Poça d'água - Em que?
   - De minha performance, hoje, em voo.
   - Sim. Eu o refleti, mas agora estou vazia.
   - O passado me condena, se levado em conta voos havidos.
   - Sim.
   - Hoje poderia, refletir-me por mais tempo.
   - Você faria o que com tal imagem?
   - A filmaria, pra tê-la pra posteridade.
   - Sua imagem em mim era, até então, a de um pássaro caído do ninho.
   - Eu estou no encalço, com meu bico curvo, predador.
   - O ninho está em árvore, enquanto você está no chão gramado de experiências, mas sem asas, pra voar, suficientes.
  - Você espelha o meu céu, testemunha de minha habilidade e coragem.
   - Façamos uma aliança.
   - Qual?
   - Eu - poça dágua, refletirei o seu ninho, e formarei assim a sua casa.
  - Mas como eu habitarei essa minha nova casa, que me é oferecida?
  - Primeiro salvando-se do instinto de gavião, que o habita, ao constituir amizade com o sabiá-laranjeira.
   Como sublimar seu instinto!?
  - Você - sabiá-laranjeira, quer ser meu amigo? Ofereça seu conteúdo, a mim que habitará com você esse ninho. Mostre-me antes como voar com minhas asas, mas com suas qualidades.
   Sabiá-laranjeira - Eu serei você amanhã?
   - Como meu amigo, você – sabiá-laranjeira, estará com asas de gavião, bico entortado pra baixo e minhas qualidades de rapinador de ninhos.
   - Comerei os ovos, não eclodidos, de minha mãe?
   - Sim.
   - Torno-me seu conteúdo, gavião, mas se abrir mão de seu intento. Ofereço-me em sacrifício.
   - Amém. Nhac.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

sábado, 27 de junho de 2015

36. Carta Aberta ao Arrivista.

   Desnecessário é o medo, coletivo expresso em barbárie, que provoque bélica reação, em sinergia coletiva.
   O medo de cada pai é, impresso com suavidade em seu filho, sublimado, ao ser transformado em virtude.

após chuva fina
efêmera beleza -
crepúsculo de verão
   Ricardo – pai de três filhos e avô de dois netos, em reversa proposta.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

35. Palavra Entrecada.

   Palmeira (P) - Oásis, é o que você é, pra mim.
   (Oásis) - Você é, nesse oásis, minha palmeira.
   - À sombra de mim – palmeira, espero seu descanso sob sol forte.
   - Eu já quero que frutifique e traga os pássaros, em busca de suas sementes, agora.
   - Que o verde de minhas folhas o tranquilize.
   - Vejo ao longe a areia trazida, por vento forte.
   - No ponto mais alto de seu oásis ficarei, em fotossíntese. Vivo estarei pra contar, aos pássaros, o porquê do fim do nosso pequeno mundo.
   - Que a chuva transforme, no dia mais improvável do deserto, em lama essa areia, para que eu renasça em argila, moldando um muro que a proteja e a liberte, assim, do mal vento.
   Desnecessário é o medo, coletivo expresso em barbárie, que provoque sinergia coletiva.

Remo para migrar -
o que esse deserto faria!?

Ausência em mortificado pensar
mortificado por ausente palavra,
entrecou-se por uma lavra entrecada.

Escrito no modo da poesia,
acordo pro pressuposto discordo
com presença para convencimento
de pensamentos quaisquer que não façam
desbloquear fluidez criativa.

Entrecou-se por uma lavra entrecada -
ausência em mortificado pensar,
mortificada por ausente palavra.

Ao meio dia...
mistério na floresta -
presença de Trinado!

   O medo de cada pai é, impresso com suavidade em seu filho, sublimado, ao ser transformado em virtude.

após chuva fina
efêmera beleza -
crepúsculo de verão

quinta-feira, 25 de junho de 2015

34. São Cristóvão no Carnaval.

   - Olha só essa janela, que dá pro jardim tão iluminado pela luz da lua cheia.
   - Vejo o calor que da família emana.
   - Darmos a volta e pela porta da cozinha entrar, onde encontrarei a fogoza donzela da casa.
   - Tem ingresso, seu para o municipal, mas terá ela a fantasia?
   - Sim, pra que eu a dispa com meus olhos, no breu de meus pensamentos.
   - Essa serpentina é o fio da meada, de nossa volta, em deleite.
   - O confete é o que salpicará, multicores, o meu caminho.
   - A fluidez de uma chuva levará o pensamento que dê pouco sentido ao meu querer.
   - Sonho acordado ao som de acordes, das marchinhas, em harmonia, no ritmo frenético de meus pensamentos.
   - Cuidado com aquele cão, que ladre em meu caminhar.
   - Estarei em carruagem, libertária, que me ajude a reverenciar São Cristóvão.

33. Ser Palmeira em Oásis.

(Palmeira) - Oásis, é o que você é, pra mim.
(Oásis) - Você é, nesse oásis, minha palmeira.
(P) - À sombra de mim – palmeira, espero seu descanso sob sol forte.
(O) – Eu já quero que frutifique e traga os pássaros, em busca de suas sementes, agora.
(P) – Que o verde de minhas folhas o tranquilize.
(O) – Vejo ao longe a areia trazida, por vento forte.
(P) – No ponto mais alto de seu oásis ficarei, em fotossíntese. Vivo estarei pra contar, aos pássaros, o porquê do fim do nosso pequeno mundo.
(O) – Que a chuva transforme, no dia mais improvável do deserto, em lama essa areia, para que eu renasça em argila, moldando um muro que a proteja e a liberte, assim, do mal vento.

Prosopopéía de Ricardo Rutigliano Roque.