sábado, 25 de abril de 2015

17. Refluxo.

   - Vejo , na água a sarjeta, meu rosto de olhos bem abertos.
   - Sente proximidade com o líquido amniótico, seguro e quente?
   - A segurança se esvai.
   - ... Mas, e o aconchego de sua mãe?
   - Sinto que a água é fria.
   - ... Mas, e o bueiro escuro e quente?
   - Tal água vem e, de longe dali, apenas passa.
   - Sinto, como ela, o útero que recebe a vida.
   - Então é acolhedor esse sentir?
   - Sim, mas o bueiro prende enquanto o canal do parto liberta.
   - Caia no canal que atingirá o horizonte.
   - Estava na vertical e agora estou deitado nessa água parada.
   - O rio me leva, a terra das margens me recebe e os peixes me acompanham.
   - Essa água corre mais que meu corpo que permanece, flutua.
   - A correnteza não forma ondas.
   - As pedras criam um fluxo diverso.
   - O musgo denota o estar preso.
   - Seu reflexo, o ser.
   - O cheiro é do homem.
   - O tato é da mulher.
   - Sua frieza é do nascer no mundo.
   - A cachoeira existe para o vidente.
   - O cego pressente o abismo.
   - A ponte dá dimensão do ego.
   - O fundo do leito a profundidade.
   - Cada estrela é um sentimento partilhado, no tocar de sua luz à superfície.
   - Antes disso há uma emoção de cada um.

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