No último dia de aproximação com aquela árvore ele a abraçou. A descascava para isso: poder abraçá-la? Debaixo de cada casquinha havia um inseto, que cedia lugar àquele abraço.
- Melhor será pegar a pipa, sobre a árvore, meu neto. Subirei com essas pernas, descansadas em cadeira de praia. Fazer outra, com minhas mãos cansadas de trabalhar, pra que?
- Subir no tronco e chegar aos galhos nos fará brincantes.
- A pipa voltará a voar, livre no céu, presa às mãos dele por linha longa de algodão, que de tão pequena experiência a fez pousar, aqui, nas folhas.
Deitado sobre uma cama de hospital, um avô de porte atlético, bronzeado e olhar vivaz.
- Deixa eu aspirar suas secreções e trocar a cânula do traqueostoma. Você está com secreção na traqueia.
Dirige olhar, de baixo para cima, que torna, longe de obtusa, a aproximação encorajada.
- Subi na árvore, de onde, com o spray do ar quente do asfalto, a pipa de meu neto flambou.
Embute perceptível querer caminhar, novamente naquele chão, do jeito que está, pelo simples heroísmo vivido para o seu neto.
- Abra a janela e coloque uma linha, na minha mão, com uma pipa na ponta.
- Faça isso hoje, por favor, na hora da visita, esta que é, proibida a meu neto, pois apenas amanhã eu morrerei. Servirá pra testemunho de vitória da vida.
Perdeu-se, em uma troca de palavras e de cânula, a noção do tempo gasto, em que foi desconectado o aparelho de respiração mecânica. Era do segundo para o terceiro dia, de pós-operatório, quando há indicação, absoluta, de tal troca.
Para ele falar era necessário o tampar, com os dedos do cirurgião, de orifício da nova cânula, para que o ar subisse às pregas vocais e, modulado, subisse à boca.
Um piiiiiiiiiiiiiiiiii contínuo invadiu a sala do CTI – Centro de Terapia Intensiva. O paciente não voltou a apresentar os sinais vitais.
- Você debita, o infortúnio dessa morte, em meu ato técnico?
- Fique tranquilo, pois estava por um fio, com os rins sem funcionar e o coração sobrecarregado - disse o médico intensivista ao cirurgião.
- Preso em seu próprio corpo, terá três minutos, para dar-se conta do ocorrido, esse paciente. O que estará passando por sua memória?
- Recém chegado, em colorida estação – Flor de Primavera.
- Há mais em mim, Dionísio, que numa cerca em aparente jardim.
Esse cargo alcançado é, de prefeito, que me cobre de brumas e impede aparição da essência, ou esta essência é que tornará perceptível, em dialética, meu afeto?
- Com o vapor do mar e oceano, Poseidon, me umedeço.
Eu sou o mar, nutrido pela correnteza do oceano familiar, ou sou o próprio oceano, que nutre o mar familiar?
- Com a luz do Sol, Apolo, me aqueço.
A espera por meu neto é que me dá esperança de sair dessa cama.
- Só colha-me, Deméter, em safras e me entristeço.
A paraplegia me deixa passivo, à espera de minha mulher, mas pra trocas plenas.
- Há um rio subterrâneo, Jung, abaixo do meu crânio.
Minha verdadeira aspiração é, aquela a ser levada, pro meu neto.
- Animais que me habitam, Ártemis, são meus amos, mas, com o planeta Terra, Gaia, aprofundamos.
Oh, médico salva meu corpo e traga esperança à vida!
Ele caiu, até bater a coluna no paralelepípedo, em véspera de sua posse na prefeitura do município, eleito que foi, em escrutínio universal, no pleito majoritário.
Já no corredor daquela ala de hospital:
- Necessário recorrer ao exército pra manter a ordem?
- Um fuzil para amar? Como usá-lo sem machucar?
- Uma suástica enlameia – emasculada, em mortandade.
- Malfadado, você prevarica, por reverenciar tal retorno. Assuma como vice eleito.
- Entronizada, exceção, é voto vilipendiado.
- Aquartelada agora, há revolução ruinosa. Fala o pintor figurista, acordado que foi, em meio à noite, para pintar o que ali jazia.
- Individual insistência, cativada por tal atividade, há retrógrada reminiscência, em pinceladas pastel, sobre tela de algodão.
- O Exército visa à democracia proteger, em disfunção postural, um cavalo com capa de carruagem pra que outros ladrem.
- Os brucutus de antigamente, sairiam mal no quadro, tendo à cabeça um capacete - de milico, ejetor da cidadania, "limpador" de qualquer sociabilidade, e no dedo uma capinha do ejetor d'água - efluente, a limpar aquele para-brisas de fusquinha.
- Construía escudo, com o primeiro brucutu, em minha infância, ostentado por artesanal anel no quarto dedo, pra me proteger de agressões do brucutu maior.
- Com olhar risonho avista a gente. Evita marionete.
- Hoje se pode dispensar o exército, pra tal, na democracia.
- Se enxerga desastre político, rompa o casulo, da crítica fundamentada, ecloda em borboleta, com asas assertivas.
- Farei fotossíntese em folha, que nutra você enquanto lagarta.
- Um canto solitário, aguarda uma resposta – Bem-te-vi.
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