Jogo limpo.
O que me levou àquele jogo, de futebol no presídio, foi um anzol descognitivo. Um colega de escola, o "Carioca", tão chutador, longe de respostas quanto de bola, pra tentativa de vazar, em metas tidas como adversárias. Agora um gol distava, redentor, de nosso adolescer
desajeitado, tanto quanto um resultado adverso do tranquilo goleiro adversário. Era um time de presos com auto estima centrada em mística da invencibilidade: apenas o "Toca da Onça", um escrete que obtivera o sucesso, impossível à hora, de uma contralateral grade curricular minha, e em avizinhada grade penitenciária que margeia o cais de porto, mas ipsilateral, à ambas, em precariedade.
À meu lado estava uma torcida, impaciente, que ao circundar, o limite daquele campo, quase invadia tal quadra, de cimento ainda frio, em busca de um banho de sol.
- Eu não entro?! Pergunta martelada em minha mente penitente. Mas como!? Se não jogava bem, tanto um jogo sujo quanto limpo, que me prendesse ou lhes rendesse, chutando a bola daqueles que já fungavam em meu cangote!
A situação me parecia estanque, longe da distância guardada pelo céu, única coisa que se equilibrava naquela cobertura, por sobre o edifício de celas amontoadas, tão abaixo do antigo "Morro do Vigia" (¹), que ostentava um testemunho, o da capela da padroeira da cidade - Nossa Senhora de Monte Serrat, que hoje empresta nome ao morro, em cumplicidade com São Francisco - avenida do centro da cidade, endereços eternos de um tempo que afora passava tão rápido.
¹ SANTOS, F.M. – “História de Santos”; 1º volume, pág. 137, 2ª ed.1986; Ed. Caudex São Vicente - S.P. .
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